Os tentáculos de Donald Trump no Brasil com a cooperação do clã Bolsonaro

Entre o tarifaço, os ataques ao Pix e as barganhas por anistia, o clã Bolsonaro se volta a Donald Trump e usa a pressão estadunidense para desacreditar a soberania nacional e influenciar as eleições de 2026
Por Isabella Gabas
A relação entre o Brasil e os Estados Unidos, a partir de 2025 e em seu ápice em maio de 2026, enfrenta uma grave crise sob a presidência de Donald Trump. Além das relações com o Brasil, o presidente Trump busca, em diversos outros países latinos, sugar a autonomia e soberania dos países, sob ameaças e tarifas. Isso, entretanto, não é algo pontual ou que começou somente agora, mas os Estados Unidos agem contra a soberania de outros países desde a “Doutrina Monroe” em 1823, que defendia a ideia de “América para os americanos” e barrava a interferência de países europeus no continente americano, mas que tinha nas suas entrelinhas a tentativa de deixar a influência dos Estados Unidos como única nos demais países americanos. Desde então, existe um pensamento de que a América Latina é o “quinta de casal” dos EUA, com operações militares e interferências nas democracias de diversos países, entre eles o Panamá, a Guatemala, o Chile, a Venezuela, a Bolívia e o próprio Brasil, países que são marcados até hoje por essas influências e tensionamentos.
O estudante e pesquisador internacionalista, Murilo Lopes, fala sobre o histórico de intervenções estadunidenses em países latinos, “é uma forma de intervenção que opera nesse sentido, de mudar essa conjuntura regional para atender esses interesses estruturais dos Estados Unidos. E por estruturais, eu digo não somente interesses com algum país em específico, mas os interesses dos Estados Unidos em como se ordena o capitalismo a nível internacional. Então, não é coincidência, que intervenha na América Latina em momentos em que a sua hegemonia no plano global está sendo contestada.”

Donald Trump em evento de apoio de latino-americanos à sua candidatura, com bandeiras de países latinos ao fundo. (Fonte: World Politics Review)
A partir da segunda eleição de Trump, em 2024, houve uma restituição da Doutrina Monroe, dessa vez com o nome de “Doutrina Donroe”, que seria a junção de Monroe com Donald, marcando um reestabelecimento das invasões e intervenções estadunidenses na América Latina. Isso, portanto, foi marcado principalmente pelo sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em 3 de janeiro de 2026, dando início a uma série de ameaças à democracia e à soberania dos países latino-americanos. Após isso, Donald Trump anunciou tarifas alfandegárias e de importação a 57 países, incluindo o Brasil, com taxas que chegaram a 50%, como uma tentativa de controle e de garantia da hegemonia estadunidense na política internacional.
Com o Brasil, entretanto, o tensionamento se dá em duas frentes: a imposição das tarifas de 25% sobre exportações brasileiras (o famoso “tarifaço”) e a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras pelos EUA, pensando especificamente na possibilidade de utilizar essas classificações, feitas por ele mesmo, como justificativa para alguma possível invasão.
“A partir dessa classificação, essas organizações são taxadas como uma ameaça à segurança nacional desse país. E justificam medidas mais duras, então não somente de taxações, por exemplo, como a gente está sofrendo. Mas a gente pode vir a sofrer incursões militares mesmo no território por conta disso, sejam diretas, que eu acho menos provável, sejam elas indiretas por meio de países aliados dos Estados Unidos, que tem na América do Sul nesse momento. Esse é o padrão da doutrina de segurança dos Estados Unidos, de interferência e influência internas militares nos países da América do Sul, em específico na Amazônia, né? E hoje a gente parece estar vendo um retorno disso atualizado pela doutrina do Donald Trump”, explicou Murilo Lopes.
Além disso, mais recentemente, o cenário expõe políticos “patriotas” como vira-latas do governo estadunidense, a exemplo do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que está atualmente foragido nos Estados Unidos. Ele elogiou o tarifaço como "sucesso na transmissão da realidade" e propôs negociar o Pix usando o sistema privado americano Zelle, em sua rede social X. Como uma possível forma de entregar tecnologias nacionais aos EUA, essa postura traz prejuízos diretos ao país ao chancelar sanções comerciais que afetam o setor produtivo e ao tentar enfraquecer soluções de engenharia nacional bem-sucedidas. Isso gera também um enfraquecimento nas políticas internas e soberanas do país, uma vez que possíveis ameaças à hegemonia estadunidense, como a nacionalização de produtos e tecnologias brasileiras, são entregues pelos “patriotas”.
O senador e candidato presidencial Flávio Bolsonaro, irmão de Eduardo Bolsonaro, foi aos EUA para discursar no Escritório do Representante de Comércio (USTR) contra as tarifas, alegando que elas beneficiariam eleitoralmente o presidente Lula, e fez um acordo de colocar as terras raras brasileiras nas mãos de Donald Trump, caso vier a vencer as eleições presidenciais. Isso mostra a aproximação de figuras políticas brasileiras, com grande interesse da parte de Trump, para aliados no Brasil, e o jogo que está acontecendo em nome da soberania nacional do país. A parcela do eleitorado bolsonarista que apoia e contempla as atitudes da família Bolsonaro, também pensa favoravelmente nessa atitude por idealizar os Estados Unidos como o modelo supremo de liberdade, conservadorismo e anticomunismo, não enxergando a perda de autonomia do Brasil nas políticas entreguistas e retrógradas dos Bolsonaros.

Flávio e Eduardo Bolsonaro em visita aos Estados Unidos com Trump. (Fonte: Diário do Poder)
Para a estudante em ciências sociais, Sâmia Saraiva, esse discurso “patriota” causa uma reconfiguração da própria titulação da nacionalidade da população. De acordo com ela, as pessoas entendem com uma nova roupagem o que seria ser brasileiro: “A gente consegue visualizar dentro da população em geral que vai ser tomada por esse discurso, uma nova perspectiva do que é ser patriota, mas também uma nova perspectiva do que é ser brasileiro.” Com isso, há uma mudança de perspectiva até na identidade brasileira, que aparece em cheque junto com a soberania nacional, e que é reforçada pelas políticas de retirar a autonomia do país e entregá-la a Donald Trump. Isso, por sua vez, é algo muito perigoso para o futuro do país, uma vez que países que sofreram intervenções estadunidenses e possuem uma política alinhada com a deles sofrem com o roubo de seus recursos e com a pobreza da população – para a riqueza de outros.
Em outros países da América Latina, a reversão do cenário de dependência dos Estados Unidos é muito difícil, não apenas por questões externas, mas pelas próprias elites que reforçam as políticas realizadas com Donald Trump. Murilo Lopes fala sobre um cenário em que um país poderia reverter o cenário e restaurar a sua soberania, “é algo que envolveria custos altíssimos, porque envolveria não somente uma disputa com os Estados Unidos, dependeria do enfraquecimento da sua política imperial, mas também envolveria uma disputa com elites internas cada vez mais reacionárias,” finaliza o estudante.
Com isso, os discursos entreguistas pela parte do clã Bolsonaro colocam também em disputa um dos poucos países da América Latina que ainda se mantém de certa forma sem precisar diretamente dos Estados Unidos para a sua sustentação. O Pix, uma tecnologia nacional e gratuita, mostra algumas das formas que o Brasil consegue ter para crescer nacionalmente e internamente, o que causa uma forte quebra com a hegemonia tecnológica estadunidense. Essas tecnologias, por sua vez, como a Meta e o X (antigo Twitter), são utilizadas também como forma de interferir nas eleições e no cenário político brasileiro, “esses grupos de extrema direita, não só comprometem a soberania do nosso país, mas eles também estão organizados e alinhados aos meios tecnológicos com os quais a gente convive diariamente [...] então, são coisas aqui que a gente observa, essa interferência já está acontecendo, até porque a Meta tem contato direto com o Donald Trump”, conta Sâmia Saraiva.
Além disso, na última semana do dia 21/09, foi lançada uma nota pelo governo estadunidense afirmando que as forças militares estavam à procura de professores de português para ensinar aos soldados. A partir dessa afirmação do governo, pode-se perceber a estratégia que está sendo moldada para ataques à democracia e ao Brasil, como aponta a estudante de ciências sociais: “então a gente já está vendo um estudo linguístico, mas também provavelmente um estudo geográfico das áreas. Então essa classificação vai afetar diretamente a circulação desse grupo aqui dentro do país, mas com outros vieses. E principalmente aqui no norte, que é onde eles encontram encontram predominantemente a questão dos recursos naturais. É muito problemático e essa classificação com certeza vai atropelar a soberania do Brasil, porque basicamente vai vir um país aqui para dentro para defender o que eles acham ou não certo.”
Essas ações pela parte de Donald Trump podem refletir alguém realizando tentativas muito grandes de não perder a sua hegemonia, uma vez que pode-se perceber a decadência do poder ideológico e político dos Estados Unidos, e isso reflete diretamente em países que estão impondo a sua soberania e não estão dependendo em primeiro lugar do país norte-americano.
Atento a isso, Murilo Lopes menciona a queda da hegemonia e os próximos passos para que o Brasil consiga continuar erguido perante ao cenário internacional: “é um momento de crise estrutural do capitalismo. Acho que esse tensionamento se resolve no fim de um ciclo hegemônico, e internacionalmente eu tenho visto dificuldades dos Estados Unidos manter esse seu ciclo hegemônico ainda de pé. Não é algo já dado de que vai cair amanhã, mas que sim a gente observa tendências de queda. E é papel do Brasil, dos movimentos populares brasileiros, dos grupos políticos nacionalistas no Brasil articular certa unidade para que o Brasil tenha um projeto nacional de inserção nesse mundo.”
A preservação da soberania brasileira e a rejeição ao alinhamento automático com interesses estrangeiros, mais do que nunca, são indispensáveis para assegurar a autonomia e a soberania econômica, tecnológica e democrática do país. O Brasil enfrenta o desafio de romper com práticas da extrema-direita – ligadas principalmente pela atuação da família Bolsonaro – que instrumentalizam a política interna e externa para subordinar decisões nacionais a pressões dos Estados Unidos e a alianças ideológicas que não são de interesse nacional. Superar essa lógica de vassalagem e lobby e consolidar a independência das instituições é um caminho para proteger as conquistas públicas que são estratégicas e garantir a plena autonomia do país.






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