A Copa das três nações e das múltiplas incertezas
- Revista Cabanos

- há 15 horas
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Por Luan Cardoso e Samilly Silva

Pela primeira vez em quase um século, o Campeonato Mundial de Futebol da FIFA será realizado simultaneamente em três países: Canadá, Estados Unidos e México. O ineditismo da sede tripla, porém, divide espaço com um cenário político delicado, especialmente nos EUA, onde decisões recentes na área migratória e tensões geopolíticas levantam dúvidas sobre o ambiente que receberá milhões de pessoas ainda este ano.
Entre os principais pontos está a política dos vistos, a qual, em janeiro, teve a emissão suspensa para cidadãos de 75 países. Embora a medida do Departamento de Estado norte-americano se refira oficialmente a processos de imigração permanente e pedidos de asilo, o endurecimento do discurso migratório, principalmente por parte do presidente Donald Trump, gerou receio entre turistas e torcedores que planejam viajar para o torneio, o que amplia a percepção de que a Copa de 2026 pode acontecer em meio a um clima de desconfiança nas fronteiras.
Essa incerteza projeta uma sombra sobre o planejamento de viagem de quem vem de fora. Para o torcedor estrangeiro, ir a uma Copa do Mundo não é apenas uma decisão esportiva, mas um investimento financeiro e emocional de grande porte. O temor de que o contexto político resulte em interrogatórios mais rigorosos, negativas de entrada ou retenções prolongadas em aeroportos já aparece em debates nas redes sociais, onde usuários de diversos países cobram transparência da FIFA sobre protocolos de segurança e garantias de acesso. Outros vão além e defendem que partidas não sejam realizadas em solo norte-americano, receosos de que, mesmo com ingressos e hospedagens pagos, o rigor migratório transforme o sonho de viver o Mundial em um episódio de constrangimento — ou terror.
Pressões internacionais e a polarização do torneio
O desconforto não se limita aos viajantes. Figuras ligadas ao futebol, como o vice-presidente da federação alemã, Oke Göttlich, e parlamentares europeus questionam o contexto do torneio, defendendo que eventos deste porte não podem ser dissociados do ambiente político. Embora um boicote formal seja improvável, o desgaste antecipa uma competição marcada por pressões diplomáticas e manifestações simbólicas.
Para o analista Gustavo Freitas, o risco maior é o acúmulo de crises transformar o torneio em vitrine de tensões globais. Ele avalia que protestos internos devem marcar o campeonato, impulsionados por setores da própria sociedade norte-americana insatisfeitos com as políticas migratórias. “A Copa do Mundo, com certeza absoluta, vai ser um momento de grandes protestos para o mundo inteiro ver contra o governo americano, partindo dos próprios americanos”, afirma.

A diplomacia do “deixa como está”
Apesar das críticas e incertezas, a tendência é, segundo Gustavo, que governos vizinhos e parceiros estratégicos do país norte-americano evitem confrontos diretos durante o período do Mundial. Isto, na lógica das relações internacionais, significa que a preservação de vínculos de Estado costuma se sobrepor às discordâncias com governos específicos — ou em uma linguagem mais futebolística: “não se mexe em time que tá ganhando”. Uma máxima mais do que perigosa para o atual cenário global.
“Embora o governo americano hoje seja liderado por um presidente imprevisível, muitos países evitam a confrontação direta e, quando confrontam, depois buscam o diálogo, porque acima do presidente existe uma relação entre Estados”, explica o analista.

O silêncio ensurdecedor da FIFA
A FIFA encontra-se em uma corda bamba institucional. Historicamente, a entidade refugia-se no discurso de que o futebol é "apolítico", mas o gigantismo desta edição torna essa neutralidade quase impossível. “O presidente da FIFA, Gianni Infantino, jamais deixaria de defender os interesses da Copa do Mundo dentro dos Estados Unidos”, expõe o internacionalista.
Para a organização, o sucesso do Mundial depende fundamentalmente da liberdade de movimento. Contratos de sede geralmente incluem cláusulas que exigem que o país anfitrião facilite a entrada de atletas, delegações e portadores de ingressos. O desafio atual é que o endurecimento das políticas de visto nos EUA colide frontalmente com a promessa de uma "Copa para todos".
Até o momento, a resposta da federação tem sido a de bastidores, tentando assegurar que o "visto de torcedor" funcione como uma via expressa. Contudo, em um governo marcado pelo nacionalismo e pelo rigor nas fronteiras, a FIFA pode descobrir que, desta vez, nem mesmo o poder do futebol é capaz de abrir todas as portas.
Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, emitiu uma declaração onde afirma que a Seleção do Irã é bem vinda a participar da Copa do Mundo, mas que não acharia apropriado por uma questão de segurança dos jogadores e das outras delegações.
O Mundial de 2026, que deveria celebrar a união da América do Norte, chega ao ano de sua realização como um teste de estresse para a diplomacia esportiva. Se o apito inicial costuma silenciar as críticas, o cenário atual sugere que, desta vez, o barulho vindo das fronteiras será ouvido até o último minuto da final.







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