O Sudeste sequestrou o conceito de nacional:
- Revista Cabanos

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A inferiorização do jornalismo esportivo na Amazônia
Por Júlia Secco
O conceito de colonialismo interno ajuda a revelar algo que, muitas vezes, é tratado como natural no Brasil: a desigualdade entre regiões que compõem um mesmo território.
De forma econômica, política, cultural e simbólica, essa lógica faz com que determinados espaços se consolidem como centros de poder, enquanto outros são empurrados para a margem, tendo sua importância reduzida ou invisibilizada.
O esporte brasileiro, especialmente o futebol, é atravessado por uma desigualdade estrutural que vai além do campo. A concentração de poder e recursos no Sudeste revela uma política que reduz outras regiões à condição de periferia, mesmo dentro das fronteiras nacionais. O que nos faz pensar sobre noção de nação: o que se produz no Sudeste é elevado à categoria de “nacional”, enquanto manifestações vindas de regiões como a Amazônia são classificadas como “regionais” — e, por consequência, secundárias.
No jornalismo esportivo, essa desigualdade se traduz em critérios de visibilidade. Não se trata apenas de quem produz mais conteúdo, mas de quem tem o poder de definir o que merece circular nacionalmente. Assim, produções sudestinas são amplificadas como referência, enquanto narrativas amazônidas permanecem restritas, independentemente de sua relevância. O jornalista e especialista no assunto colonialidades, Guilherme Guerreiro, contesta esse ideal: “O nacional se arvora como universal. Então o Sudeste pode falar do Brasil todo, e a Amazônia fala de um pedaço. Mas não é assim. A Amazônia fala do nacional e fala também do mundo”.

A região Sudeste foi historicamente construída como o coração do futebol brasileiro. É de lá que se definem as referências, as pautas prioritárias e os parâmetros do que se entende por futebol “nacional”. Clubes, profissionais e narrativas esportivas da região amazônica raramente ganham espaço nos veículos centrais.
A invisibilidade também é percebida por quem vive o cotidiano da cobertura esportiva. A jornalista esportiva paraense, Liane Coelho, aponta que a região só ganha espaço em situações específicas: “Normalmente, quando nós somos citados na mídia nacional, é quando estamos enfrentando um time de São Paulo, do Sul ou do Rio de Janeiro.” Segundo ela, mesmo nessas ocasiões, a abordagem costuma ser marcada pelo estranhamento: “Parece que toda vez a gente precisa reforçar que aqui também se vive futebol”, desabafou.
O contraste fica evidente quando olhamos para transmissões, programas e matérias esportivas. Muitas vezes, o que se produz no Pará não circula além das fronteiras regionais, mesmo quando a pauta são clubes de massa, com torcidas gigantescas e histórias centenárias, como o Clube do Remo e o Paysandu, enquanto conteúdos semelhantes vindos do eixo central são apresentados como se representassem todo o país. Esse processo de legitimação funciona como um filtro que determina quem merece ser ouvido e quem deve permanecer à margem. E o resultado é um jornalismo que não reflete a diversidade do Brasil, mas reforça a falsa ideia de que o país só pode ser narrado a partir do Sudeste.

A limitação de espaço também é um fator central nesse processo. A Amazônia costuma aparecer como exceção, como algo indesejado e que não se encaixa no padrão nacional. Liane Coelho destaca que a presença da região nos programas nacionais é praticamente inexistente: “Se a gente pegar os programas nacionais, nós nunca somos citados.” Para ela, o pouco tempo destinado ao conteúdo local reforça essa marginalização: “Parece que falar dos nossos times é mera obrigação, não existe uma importância dada.”
É um processo de inferiorização que naturaliza a ideia de que o futebol de verdade está no centro do país e que todo o resto gira em torno dele. Isso significa que o conceito de “nacional” foi sequestrado por uma região que se coloca como eixo, e que não reconhece a diversidade de práticas esportivas produzidas fora.
Essa ideia também atravessa o trabalho dos jornalistas que atuam fora do eixo hegemônico. Muitas vezes, para que a narrativa esportiva amazônica seja vista e compreendida por públicos de outras regiões, ela precisa se adaptar, moldar-se a um padrão de interesse definido no Sudeste. Isso não é apenas uma questão de mercado: é uma forma de violência que limita a autonomia da região em contar sobre si mesma. Os jornalistas locais se tornam reféns da legitimação que vem de fora, e suas carreiras são permeadas por essa centralidade desigual.
Na perspectiva econômica, essas desigualdades se expressam de forma clara nas finanças do futebol brasileiro. Enquanto clubes do eixo Sul-Sudeste operam com receitas que chegam à casa dos bilhões — como o Clube de Regatas do Flamengo, que ultrapassou R$ 2 bilhões em faturamento anual — equipes tradicionais da Amazônia, como Clube do Remo e Paysandu, permanecem fora desse circuito financeiro, com arrecadações muito inferiores e pouca participação nas principais fontes de receita do futebol nacional.
Romper com essa lógica significa adotar uma postura descolonizadora, que reconheça que não existe um único centro esportivo no Brasil. O pesquisador Guilherme Guerreiro reforça a discrepância econômica entre os espaços e como ela afeta de forma direta no reconhecimento e na importância do contexto desportivo da região amazônica, e conclui: “É um abismo também simbólico de aparição pública e de mídia. Como é que a gente percebe a importância de um Flamengo e Vasco, ou de um Flamengo e Botafogo do mesmo jeito que a gente percebe a importância de um Remo e Paysandu? E isso é uma mudança lenta, porque é um processo cultural e ao mesmo tempo político, mas que não funciona sem essa descolonização econômica”.

O futebol da Amazônia não é periférico — ele é parte fundamental da cultura esportiva brasileira, com sua história, seus clubes, suas torcidas e seus profissionais. Reconhecer isso exige mais do que dar espaço eventual no noticiário: exige repensar as estruturas do jornalismo esportivo, descentralizar pautas, fortalecer os veículos locais e questionar os padrões que definem o que é ou não “nacional”. Enquanto a Amazônia for tratada como regional, o jornalismo esportivo brasileiro continuará incompleto. Reconhecer a legitimidade de sua produção é reconhecer, de fato, a diversidade do Brasil.






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