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Amazônia em movimento: o atleta Márcio Souza e a força dos esportes de baixo impacto na maratona rumo à COP 30

  • Foto do escritor: Revista Cabanos
    Revista Cabanos
  • 21 de nov. de 2025
  • 6 min de leitura

Por Júlia Secco e Walter Afonso

   Márcio Souza é um jovem de Ananindeua que, sofrendo, aprendeu o verdadeiro significado da palavra refazer. Aos 20 anos, ele carrega no corpo as marcas de uma luta contra o sedentarismo, o vício e a depressão. As mais profundas, porém, estão em sua mente e em seu coração. A morte de seu filho o tirou totalmente do rumo e o mergulhou em um intenso desespero. “Antes do meu filho, eu era só um garoto. Quando ele chegou, me ensinou a ser homem, me ensinou a ser ambicioso. E quando ele partiu, tudo desabou de novo”, relembra. 

    Enquanto a dor permanecia sobre ele, um caminho autodestrutivo era trilhado na companhia de uma depressão que o separou de si mesmo.“Eu cheguei a pesar 112 quilos, vivia no cigarro, na bebida, dormia quatro da manhã e acordava meio-dia. Eu me sentia horrível, sem autoestima, sem vontade de sair de casa. Ataques de pânico e ansiedade se tornaram constantes. Também tive que dar o passo de procurar alguém.” Três medicamentos diários o mantinham vivo enquanto ele se esforçava para encontrar o equilíbrio entre corpo e mente. ”Eu queria sair de mim. Foi o pior momento da minha vida”, ele admite. 

  

Márcio pesando 112 quilos / Foto: Acervo Pessoal


  A família, a fé e as pessoas certas ao seu redor foram fundamentais nesse processo. O atleta destaca algumas delas, como o nutricionista e treinador esportivo Gabriel Pereira, a quem ele credita grande parte da sua recuperação. “Foi o cara que me resgatou do fundo do poço. Disse: ‘eu vou mudar tua vida’. E mudou. Ele é mais que um coach, é um irmão.” Foi nesse contexto que a corrida entrou na vida de Márcio, primeiro como uma simples atividade física, depois como um divisor de águas. “Eu comecei a correr pra fazer cardio. Nunca imaginei que iria tomar essa proporção. A corrida entrou como um furacão na minha vida, acelerou o meu processo de emagrecimento, de parar de fumar, de lutar contra a depressão. Foi o pontapé inicial para mudar tudo.” 

  Com o tempo, os quilômetros pareciam significar não apenas resistência física, mas também uma forma de vencer feridas não vistas. “Quando eu consegui correr dez metros sem cansar, foi uma vitória. Depois um quilômetro, depois dez. A corrida me mostrou que não é o corpo que limita a gente, é a mente.” Levou pouco mais de um ano para ele passar de um jovem que lutava contra a depressão a um maratonista exemplo de superação para seus amigos, familiares e  alunos.. 


Foto: Acervo Pessoal


A corrida trouxe de volta o brilho nos olhos e o senso de propósito. Márcio passou a ministrar aulas em projetos sociais e a inspirar outros jovens a acreditarem em si mesmos. “Eu sempre digo: não importa se você corre 10 metros ou 10 quilômetros, o importante é começar. A corrida salva vidas. Ela me salvou.” 

       O momento mais marcante de sua trajetória aconteceu na Meia Maratona da Amazônia pelas avenidas históricas de Belém: “Foi surreal. Quando pisei na Presidente Vargas, senti vontade de chorar. Parecia que meu filho estava ali comigo. Aquilo foi uma das experiências mais lindas da minha vida.” A fé, presente em cada passo, é parte essencial da sua jornada. Devoto de Nossa Senhora de Nazaré e ligado a sua espiritualidade afro-brasileira, Márcio acredita que o movimento é também uma forma de oração. “Eu vivo pra correr e corro pra viver. A corrida virou minha oração diária, minha conversa com Deus, com meus orixás, com meu filho.” 

     Hoje, ele carrega no pescoço a palavra “vivaz”, tatuada como um lembrete do que se tornou. “Vivaz é o que se reconstrói mais forte do que foi destruído. E foi isso que eu fiz: me reconstruí.” Entre medalhas e marcas pessoais, o maior troféu de Márcio é poder inspirar outros a não desistirem. Seu pai, que também enfrentava a obesidade, seguiu seus passos e hoje se prepara para correr a primeira meia maratona.

 

Grande impacto na mente, menor impacto à natureza

    Para Márcio Souza, a corrida tem sido uma maneira de encontrar a si mesmo e seus limites, e também de se conectar com o espaço onde vive. Cada treino nas ruas, sob as árvores da cidade, ensinou que cuidar do corpo também é um ato de atenção ao mundo ao redor,  já que cuidar de si pode significar cuidar do meio ambiente.  “Quando corro pelos parques e pelas ruas, percebo que respeitar a natureza ao meu redor é parte do meu treino, é cuidar de mim e do lugar onde vivo.”

    Esta consciência exalta o valor dos esportes de baixo impacto, atividades de baixa tecnologia que promovem exercícios responsáveis tanto nos ambientes urbanos quanto na natureza. Correr ou caminhar por espaços verdes é saudável não apenas para o praticante, mas também por incentivar as comunidades a viverem o espaço de forma ativa e conectada com o meio ambiente. Para o esportista, essa conexão entre corpo e ambiente está diretamente ligada a debates globais, como os que serão tratados na COP 30. Ele acredita que eventos como esse reforçam a importância das pequenas atitudes cotidianas, lembrando que “quando a gente cuida do espaço em que vive, já está participando de uma mudança maior.”

   O exemplo de Márcio prepara o terreno para discussões em maior escala na Conferência das Partes, que tem como sede em 2025, a cidade de Belém. Nessa ocasião, a metrópole será o centro do debate mundial sobre o clima que, além de reunir líderes e delegações de várias nações para discutir o meio ambiente, coloca a Amazônia no centro da discussão.  No entanto, o grande desafio da conferência não está apenas nas taxas de carbono ou nos relatórios de sustentabilidade, mas em reconhecer que o meio ambiente não existe separado das pessoas. 

          A Amazônia urbana, em especial, escancara a urgência de equilibrar natureza e cidade como um ecossistema funcional e benéfico. Belém é um espaço que carrega riqueza ambiental, porém enfrenta desafios urbanos quando debatemos os cuidados recebidos. Mais do que políticas ou metas, o que está em jogo no debate climático é uma alfabetização ambiental que nasça do cotidiano e estabeleça amigavelmente a relação com o lugar que nos sustenta. Entre as muitas formas de cuidar da natureza, seja reduzindo o uso de carbono ou praticando a coleta seletiva, há uma que une saúde, bem-estar e consciência ecológica: o movimento do corpo.


Conferência que coloca corpo, cidade e clima no mesmo plano

        Segundo a engenheira ambiental Tainá Ruber, a corrida é um dos esportes com menor impacto ambiental, especialmente quando comparada a modalidades que exigem alto consumo de energia, combustíveis fósseis ou grandes estruturas. Por ser uma atividade essencialmente humana, ela dispensa maquinário, iluminação artificial e deslocamentos motorizados, o que reduz as emissões de gases poluentes e o uso de recursos naturais. A especialista também destaca que esse tipo de prática estimula o uso sustentável dos espaços públicos, como parques e praças, contribuindo para que esses locais sejam valorizados e preservados pela própria comunidade.


Foto: Acervo Pessoal


     Buscando preservar as características naturais dos ambientes onde ocorrem, os esportes de baixo impacto são práticas que causam interferência mínima na natureza e podem ser realizadas aproveitando os espaços já existentes, exigindo consciência e responsabilidade dos praticantes para que o contato com a natureza seja compatível com sua conservação. Segundo Tainá, “o que caracteriza um esporte de baixo impacto é justamente sua simplicidade: ele exige pouca infraestrutura, não depende de equipamentos caros nem de locais exclusivos, podendo acontecer em ruas, praças, parques e áreas de floresta urbana”.

      Promover e discutir os esportes de baixo impacto na Amazônia é de suma importância, principalmente enquanto Belém sedia a COP 30. A conferência oferece uma oportunidade de colocar em prática aquilo que tanto se debate nos painéis internacionais: a relação concreta entre corpo, cidade e meio ambiente. Estimular essas práticas na região não é apenas uma ação de saúde pública, mas um gesto político de valorização do território, onde as pessoas reconhecem o valor dos espaços naturais e urbanos, tornando-se agentes diretos da conservação ambiental. Essa ocupação consciente transforma o cotidiano, reduz a dependência de veículos motorizados, amplia o senso de pertencimento e prova que políticas climáticas também se constroem com passos coletivos por parte da comunidade. O evento global tem a chance de dar o pontapé definitivo para inserir o esporte de baixo impacto na agenda climática amazônica, mostrando que o movimento do corpo pode ser também um movimento de transformação ambiental.

    Por fim, Tainá Ruber também destaca a importância da chegada dessa reflexão às políticas públicas: “Seria muito importante que a COP 30 discutisse políticas públicas e programas que integrem esporte, saúde e sustentabilidade, como eventos de carbono neutro, incentivo ao transporte coletivo e a promoção de espaços urbanos que estimulem o contato com a natureza.”. E finaliza: ”Em uma cidade como Belém, isso teria um impacto simbólico muito forte e mostraria que o movimento pelo clima começa com o movimento das pessoas.” 



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