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Moradores lamentam a contaminação dos rios de Barcarena

  • Foto do escritor: Revista Cabanos
    Revista Cabanos
  • 21 de nov. de 2025
  • 5 min de leitura

Danos ambientais causados por atividade de empresas mineradoras trazem consequências para a saúde da população, que apresenta sintomas como dermatites e doenças respiratórias


Por Vitoria BalieiroĀ 

        Barcarena, Ôrea recém-integrada à região metropolitana de Belém. CenÔrio de diversos acontecimentos importantes durante os anos da Cabanagem e onde faleceu o cÓnego Batista Campos, um dos autores do movimento. Atualmente, a cidade é famosa por suas praias e ilhas, além de possuir o maior porto do ParÔ, situado na Vila do Conde. Segundo a Companhia de Desenvolvimento EconÓmico do ParÔ (Codec), a região abriga 94 empresas, em sua maioria, de mineração. 

         Nas últimas décadas, tem-se registrado diversos desastres ambientais ligados à atividade empresarial na cidade. Alguns dos mais afetados são os moradores da Vila do Conde, onde estÔ localizado o polo industrial. A degradação ambiental abala o elo cultural que a população tem com a Ôgua, que agora se transformou em uma relação de preocupação, seja pela saúde ou pela subsistência.

Ā Ā Ā Ā Ā Ā Ā Ā Ā Ā Ā Ā JoĆ£o Barbosa, conhecido como ā€œBombaā€, pescador e morador do bairro do Cafezal hĆ” 53 anos, relata a diminuição da pesca do camarĆ£o e o surgimento de doenƧas, devido Ć  poluição das Ć”guas pelos rejeitos vindos das fĆ”bricas. ā€œAntigamente a gente pegava muito peixe, agora nĆ£o pega. CamarĆ£o tambĆ©m pegava muito, agora nĆ£o tem mais. E a Ć”gua continua assim, diferente de como era, mudou muitoā€, conta.


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JoĆ£o ā€œBombaā€, pescador e morador do bairro Cafezal - Foto: Vitória Balieiro


Ā Ā Ā Ā Ā Ā Ā Os danos advindos dos desastres recorrentes impactam para alĆ©m do ambiental, transformando os costumes tradicionais das comunidades que tĆŖm a existĆŖncia vinculada Ć  condição do rio no dia a dia: ā€œAgora tĆ” escura a Ć”gua, isso Ć© do inverno, mas tem Ć”gua que quando chega o verĆ£o, nĆ£o presta. O resĆ­duo que caiu lĆ” dessas empresas contaminou tudo. Por isso, ficou muita gente passando atĆ© dificuldade,ā€ complementa.Ā 

Ā Ā Ā Ā Segundo dados do MinistĆ©rio PĆŗblico do ParĆ” (MP-PA), o registro de desastres ambientais ligados Ć  atividade empresarial teve inĆ­cio a partir do ano 2000, sendo o mais recente um vazamento de Ć”cido e soda cĆ”ustica no tanque da empresa Hydro em 23 de marƧo de 2025 — acidentes ocorridos anteriormente a esse perĆ­odo nĆ£o foram processados em razĆ£o da omissĆ£o de órgĆ£os fiscalizadores.Ā 

        Dentre essas ocorrências estão o rompimento do tanque e vazamento de soda cÔustica da empresa Alunorte, contaminando o Rio ParÔ; chuvas de fuligem em Vila do Conde; vazamento de caulim pela bacia de rejeitos da empresa Imerys, que atingiu igarapés e a praia da vila do Conde; vazamento de lama vermelha da Alunorte com rejeitos tóxicos e metais pesados; incêndio no depósito de produtos químicos da empresa Imerys, liberando uma fumaça tóxica por toda localidade.

       Guilherme Guerreiro Neto, jornalista e doutor em Desenvolvimento Socioambiental pelo Núcleo de Altos Estudos AmazÓnicos da Universidade Federal do ParÔ (NAEA/UFPA), explica que o acúmulo de crimes repercute não só nas condições da natureza, mas nas condições sociais. Ele destaca a importância de considerar as pessoas que estão ali, lutando para manter seus territórios tradicionais vivos e em comunidade.

Ā Ā Ā O jornalista tambĆ©m fala sobre as consequĆŖncias do processo de instalação das empresas para as comunidades tradicionais. ā€œOs primeiros impactos jĆ” sĆ£o da expulsĆ£o das

pessoas das suas terras, as pessoas serem retiradas dos seus territórios ancestrais, das suas Ć”reas de antiga ocupação por conta da instalação das indĆŗstrias… A gente fala da contaminação das Ć”guas, mas nĆ£o Ć© só a contaminação do ponto de vista quĆ­mico, o problema Ć© tambĆ©m a expulsĆ£o das pessoas. Muitas comunidades viviam na beira do rio e perderam, porque hoje toda aquela beira estĆ” praticamente ocupada por portosā€, pontua.



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Ponte do Rio Cafezal - Foto: Vitória Balieiro


      Henrique Carvalho, um dos fundadores da Associação dos Barraqueiros e Comerciantes da Vila do Conde, conta que a implementação das empresas na cidade afetou, principalmente, a comunidade tradicional, pois as Ôreas para onde foram remanejados, por não ser próxima de rios, não dava condições para praticarem atividades de subsistência, como a pesca.

Ā Ā Ā Ā ā€œNĆ£o houve assistĆŖncia a essas pessoas, nem por parte do governo, muito menos por parte das empresas, porque todos esses acontecimentos comeƧaram lĆ” na dĆ©cada de 70 e 80. O governo ainda era do tempo da ditadura. EntĆ£o assim, o governo mandou desocupar a Ć”rea para que eles pudessem vender para as empresasā€, detalha.


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Comparativo da Ôrea ocupada pela indústria na Vila do Conde (1970/2024) - Foto: Google Earth


Ā Ā Ā Ā Ā Ā Ele relata que os pescadores perderam seu espaƧo no rio para as barcaƧas e navios que ocupam a baĆ­a do Rio ParĆ”: ā€œSĆ£o vĆ”rios trapiches de embarque e desembarque aqui na regiĆ£o, entĆ£o nĆ£o sobra espaƧo para a pesca. Os pescadores antigos sobrevivem de um auxĆ­lio do governo. A vida ficou difĆ­cil com a ocupação aqui do distrito, tanto da Ć”rea rural, quanto na Ć”rea de ribeirinhosā€, diz.

Ā Ā Ā Ā Ā AlĆ©m do enfraquecimento das prĆ”ticas tradicionais, a Ć”gua contaminada afetou a relação da comunidade com o rio. Henrique relata que houveram diversas mortes por conta do consumo da Ć”gua contaminada, alĆ©m dos sintomas por conta da concentração deĀ  metais na corrente sanguĆ­nea. ā€œEntĆ£o, atĆ© a Ć”gua que Ć© consumida aqui, jĆ” estĆ” comprovadamente contaminada. Mas aĆ­, a população nĆ£o tem alternativa. Quem tem um poder aquisitivo jĆ” compra Ć”gua mineral para o seu consumo e tudo, mas quem nĆ£o temā€¦ā€, reclama.


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Parque Industrial da Vila do Conde - Foto: Vitória Balieiro


Dentro desse histórico de violações, a mais recorrente atualmente é o impacto ambiental que compromete o ar, o solo, os lençóis freÔticos, o rio, reduz a biodiversidade e prejudica a saúde das pessoas que dependem da Ôgua contaminada. Conforme a bióloga, Laís Gonçalves, em uma pesquisa publicada em 2024 pela Revista do Núcleo de Meio Ambiente da UFPA, os constantes vazamentos de rejeitos contaminam os recursos hídricos, apresentando um alto teor de metais, como fósforo, alumínio, chumbo e selênio. Devido à baixa qualidade ambiental, o aparecimento de doenças é favorecido. A comunidade relata dermatites, dermatoses, irritação ocular, dor de cabeça, queda de cabelo, nÔusea, dor abdominal e disenteria.


Danos permanentes

Ā Ā Ā Ā Ā Ā ElisĆ¢ngela Domingues, agente comunitĆ”ria que atua na Ć”rea hĆ” 24 anos, comenta sobre as prĆ”ticas de redução de danos no municĆ­pio: ā€œForam feitas pesquisas sobre a questĆ£o da Ć”gua, que hĆ” uma certa contaminação, mas tem muitas pessoas que usam tanto para beber quanto para tomar banho. A gente trabalha com orientação e prevenção e tentamos explicar ao morador como fazer esse tratamento.ā€

   Outro segmento da população afetada pelos processos químicos oriundos das indústrias são os trabalhadores. Edil Pinheiro da Silva, morador de Barcarena e funcionÔrio da empresa Hydro, desde 1990, conta que, apesar do uso de equipamentos de segurança, a exposição constante a esses compostos afeta a integridade física dos trabalhadores.      Segundo ele, 64 trabalhadores foram afastados com doenças oriundas de atividades na fÔbrica, principalmente nas Ôreas de reduções de carbono. Os sintomas mais recorrentes são os de pele e pulmão, Edil usa respirador mecânico por consequência do contato frequente com a emissão desses gases.



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Edil Pinheiro da Silva, funcionÔrio da Hydro hÔ 35 anos - Foto: Vitória Balieiro


O morador comenta sobre as motivaƧƵes da escolha de Barcarena como ā€œzona de sacrifĆ­cioā€ para receber nĆ£o apenas as indĆŗstrias, mas tambĆ©m os males causados pelos rejeitos quĆ­micos provenientes das fĆ”bricas. "Quando eles quiseram implantar essa empresa ia ser lĆ” para o lado de Icoaraci, mas o que aconteceu? O vento ia soprar todos os resĆ­duos que saĆ­am e iam deixar minĆ©rio, ia afetar a Icoaraci, ia afetar BelĆ©m, ia afetar tudo, vinha fazendo estrago. Eles escolheram aqui por quĆŖ? Para nĆ£o afetar BelĆ©m, nĆ£o afetar a capital. Quem sĆ£o as pessoas que sĆ£o mais prejudicadas hoje? Os ribeirinhos. Hoje, o peixe que se consome aqui, praticamente vem de fora. As pessoas que vinham vender seu peixe aqui no barracĆ£o hoje nĆ£o vem mais, nĆ£o tem mais pescador, a pesca tudo vem de fora. A Alunorte joga a lavagem de todo aquele processo lĆ” no Rio ParĆ”ā€, denuncia.


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Entrada da empresa Hydro/Alunorte - Foto: Vitória Balieiro


A população barcarenense enfrenta essa situação de instabilidade, sem nenhuma garantia de segurança contra futuros desastres, que repercutem na economia local, nas condições ambientais e sociais dos moradores hÔ décadas. Além de enfraquecer as prÔticas culturais das comunidades tradicionais e o vínculo com os rios.



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Logo da Cabanos (chapéu de palha e facão) na cor branca. A a mesma do cabeçalho.

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