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Concreto, calor e escassez de árvores: o legado para a população da capital da COP-30

  • Foto do escritor: Revista Cabanos
    Revista Cabanos
  • 21 de nov. de 2025
  • 5 min de leitura

O projeto de extensão da rua da Marinha e da Avenida Liberdade provoca transtornos e desmatamento em área preservada 


Por Ícaro Zacarias , Iago Vinagre, Yasmin Ribeiro e Rickellmy Santos


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Obra da rua da Marinha. Foto: Ícaro Zacarias


Apresentada ao mundo como “capital da Amazônia”, Belém é a sede da 30° Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima (COP 30), em novembro de 2025. Desde que foi anunciada como palco do evento, a cidade vem passando por uma série de obras que, segundo o Governo do Estado do Pará, vão garantir melhorias na mobilidade urbana. No entanto, algumas delas têm impactado de forma negativa as dinâmicas socioambientais, como por exemplo, desmatando áreas preservadas em função da construção de rodovias.  


Dados do último Censo Demográfico, realizado em 2022, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que Belém é uma das capitais menos arborizadas do Brasil, com somente 44,65% de sua população urbana vivendo em ruas com pelo menos uma árvore, um índice abaixo da média nacional. Além disso, a arborização existente está concentrada principalmente em bairros de classe média e alta, enquanto a população periférica fica refém de concreto, calor e de ínfimas árvores. 


A rua da Marinha está localizada no bairro da Marambaia, em Belém. Existente há mais de quarenta anos, separa moradias de uma vasta área de mata protegida. No dia 17 de setembro de 2024, o governador Helder Barbalho assinou um decreto que visa o prolongamento e duplicação da via. A proposta é interligar a rodovia Augusto Montenegro à Avenida Centenário, resultando em um grande corredor de mobilidade urbana, com extensão de 3,5 quilômetros.


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Obra na rua da Marinha. Foto: Ícaro Zacarias

 

Enquanto a Secretaria de Obras Públicas do Estado do Pará (SEOP), responsável pelas obras da COP, desmata o Parque Ecológico Gunnar Vingren para a duplicação da Rua da Marinha, os moradores locais organizam abaixo-assinados para o fim das obras, na tentativa de fazer os órgãos competentes os ouvirem.  Uma moradora, que não quis ser identificada, fala sobre as dificuldades de ser vizinha de uma grande área em desmatamento: “Poeira, carapanã, calor imenso… Os caminhões passam, os carros tremem. A gente sente o impacto", conta ela.


Erinaldo Pinheiro tem um comércio que é sua principal fonte de sustento situado próximo a obra, e relata um pouco sobre os transtornos em suas vendas por conta da poeira acumulada no local. Ele também comenta que sua mãe, já idosa, sofre com problemas respiratórios devido ao acúmulo de poeira.


"As minhas mercadorias são minha principal fonte de sustento, às vezes, o pessoal não quer levar porque tá cheio de poeira. Todo dia eu limpo. Daqui a pouco eu vou 'meter' a mangueira aqui e molhar. A minha mãe é doente, ela não pode nem vir aqui no pátio. Não pode nem ficar aqui por causa dessa poeira", reclamou o comerciante.


A Avenida Liberdade, perto do Parque Estadual do Utinga, terá cerca de 13,3 quilômetros de extensão e ligará a Alça Viária, no município de Marituba até a Avenida Perimetral, em Belém, perto dos campi da Universidade Rural da Amazônia (UFRA) e da Universidade Federal do Pará (UFPA). Além das consequências para o meio ambiente, a abertura dessa via oferece riscos a comunidades próximas à área, como o Quilombo do Abacatal, localizado no município de Ananindeua, presente na região há mais de três séculos.


Segundo os moradores, com a facilidade das empresas adentrarem na região após a inauguração da obra, as consequências podem ser ainda mais prejudiciais a essas comunidades no futuro. Isso é o que relata o extrativista e residente próximo ao local da construção, Claudio Verequete, em entrevista à BBC News Brasil: “Nosso medo é que um dia alguém chegue aqui e diga: 'Toma esse dinheiro. Precisamos dessa área para construir um posto de gasolina ou um galpão.' E então vamos ter que sair daqui”. 


Assim como Cláudio, as preocupações expostas por moradores que vivem nas proximidades da obra são cruciais dentro do debate climático, e tornam-se essenciais no contexto da COP 30. 


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Avenida Liberdade em processo de construção. 

Foto: Pedro Guerreiro / Agência Pará


Ao desmatar áreas de preservação ambiental, há a diminuição na filtração de ar que ambientes arborizados fazem através de fotossíntese. Destruir um ponto de preservação ambiental resulta em elevados números de sensação térmica. Com menos árvores e mais asfalto, maior será a propagação de calor.


O geógrafo, doutor e professor da Universidade do Estado do Pará (UEPA), Rodrigo Rafael, explica sobre a seriedade de preservar áreas florestais: “É importante a manutenção da floresta em pé. Porque eu tenho um serviço que é prestado para o meio ambiente relacionado a fornecimento de umidade, formação de nebulosidade através dessa carga de vapor d'água, distribuição de chuva. Ela faz com que haja uma dissipação de calor. Então, a nível de microclima, eu tenho uma amenização em áreas vegetadas. Porque a floresta além de absorver essa radiação para fazer fotossíntese, a outra parte da radiação que incide sobre aquela área vegetada é devolvida para o espaço.”


Efeitos extremos

Segundo um estudo feito pelo jornal The Washington Post em parceria com a organização Carbon Plan, em 2023, Belém será a segunda cidade mais quente do planeta em 2050 e terá 222 dias com calor extremo, de acordo com uma análise sobre a “temperatura do globo de bulbo úmido”. A pesquisa, produzida por cientistas, revela que esse fenômeno vai ser prejudicial à saúde de forma irreparável. A previsão é que cerca de 5 bilhões de pessoas no mundo sejam afetadas pelo aumento da temperatura. 




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Fonte:  Instituto Nacional de Meteorologia (INMET)

Gráfico: Yasmim Ribeiro


Dentre todas as cidades citadas no levantamento, Belém se torna “especial” por sofrer de um calor, cuja sensação térmica é quente e úmida devido à sua localização geográfica. A capital paraense fica próxima à Linha do Equador, na região amazônica, e recebe radiação solar intensa ao longo do ano. 


A cidade que sediará o evento da COP 30 vem sofrendo com danos severos para o meio ambiente e o bem-viver dos cidadãos. O IBGE aponta que 55,8% da população belenense vive em locais de periferia, tornando Belém a capital mais favelizada do país. Nesse sentido, a precarização do saneamento básico faz com que essa população sofra muito mais com os efeitos extremos das mudanças do clima. 


Apesar do título de “Cidade das Mangueiras”, Belém está entre as capitais que menos possuem árvores no país. Mesmo assim, algumas áreas verdes foram reduzidas com a duplicação ou ampliação de avenidas contabilizando mais de 30 obras por toda a região metropolitana.


Ainda em entrevista, o professor Rodrigo comenta sobre os efeitos desse cenário: “As pessoas que já vivem em vulnerabilidade social e econômica são aquelas que mais sofrem com os impactos das mudanças climáticas. E quando a gente fala em mudanças climáticas, nós não temos que nos ater apenas ao aquecimento global ou secas extremas, elas envolvem eventos extremos relacionados tanto com o aumento da temperatura, quanto aumento de chuva”, pontua o especialista.


Segundo a Organização Mundial de Saúde, o recomendado é cerca de três árvores por morador, 36m² de cobertura vegetal por habitante, e em nossa cidade essa média fica abaixo do recomendado. Rodrigo fala também: “Em Belém, temos apenas 8m²/9m² em cobertura vegetal. Em alguns bairros esse número chega a ser inferior, principalmente nas áreas de bairros periféricos, como é o caso do Jurunas, da Condor e da Terra Firme”.  Isso é desencadeado também pelo grande fluxo de habitantes que há nesses espaços, onde mais da metade dos belenenses moram. 


Com áreas verdes derrubadas, os danos serão sentidos a longo e a curto prazo. O calor que seria dissipado através da fotossíntese, passa a acontecer em pequena escala. Com corpos de massas de altas temperaturas, poucas árvores, infraestrutura e saneamento básico precários, um acúmulo de calor e uma sensação térmica sem precedentes são desencadeados. Como consequência, na elevação de muito concreto e na escassez de árvores, o calor será, assim, o maior legado para a população da capital da COP-30.


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