Do eixo ao norte: o cinema paraense como símbolo de resistência
- Revista Cabanos

- 2 de jul.
- 4 min de leitura
Por Maria Paula Borges e Walter Afonso
A expansão do setor audiovisual continua marcada por profundas desigualdades regionais. Historicamente concentrada no eixo Rio–São Paulo, a indústria mantém a maior parte das empresas financiadoras, produtoras e distribuidoras nas regiões Sul e Sudeste. Como resultado, regiões historicamente subalternizadas no imaginário nacional, como a região Norte, permanecem à margem desse processo, muitas vezes aparecendo apenas sob olhares externos, em vez de protagonizarem suas próprias narrativas.
De acordo com o professor do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Pará (UFPA), Alex Damasceno, o mercado nacional precisa acolher as produções que vêm de fora por conta de questões econômicas, mas também há um preconceito cultural na construção das próprias narrativas em relação ao Norte. Segundo ele: “Muitas vezes as produções de fora vêm e precarizam muito o profissional local. Então os profissionais dificilmente ocupam cabeças de equipe, geralmente são quarto ou quinto assistente. Tem, claro, um olhar que é muito preconceituoso e até estereotipado, né? Eu acho que a produção, quando vem para um lugar, ela tem que ter um compromisso também de construir a cena junto, de ajudar no processo.”
Além dos estereótipos ainda reproduzidos atualmente, o olhar externo sobre a realidade paraense já estava presente desde os primórdios do cinema no estado. A própria história do audiovisual paraense foi marcada, em grande parte, por produções realizadas por cineastas que vieram de fora. Sobre isso, ele aponta: “Quando o cinema chega no Pará, a gente já tem registro do cinema sendo produzido aqui muito pela perspectiva da pessoa que vem de fora, do europeu, né? O primeiro grande cineasta que a gente conhece é Ramón de Baños, que é um cineasta europeu que chega no Pará. Aí também teve o Líbero (Luxardo) que foi um cineasta bem importante. Também não era paraense, mas viveu a vida inteira no Pará.”


Assim, a partir da década de 1990, os editais de incentivo marcaram as primeiras gerações de cineastas consolidados no estado. Em 2010, houve a criação do curso de cinema da UFPA, o primeiro de toda a região norte. De acordo com dados da Faculdade de Cinema e Audiovisual da UFPA, só existe um curso de cinema para todos os sete estados da região norte. Ou seja, por ano, em Belém, são ofertadas 30 vagas para uma população de 17 milhões de pessoas. “Eu acho que tem um momento muito importante que é os anos de 2010, quando surge o curso de cinema em Belém. Para poder estudar cinema, por exemplo, tive que sair de Belém e toda essa geração que veio antes também fez isso, estudou fora e aí voltou. Agora, tu tem uma galera sendo formada todo ano, né? E isso mudou muito a cultura de set, da coisa da galera saber os caminhos da produção. A gente produz muito mais hoje do que produzia antes”, conta o professor.
Zienhe Castro, cineasta e diretora amazônida, comenta que há desafios maiores além das condições financeiras e logísticas. Para Zienhe, as críticas sempre envolvem a caracterização do cinema paraense como “folclórico”, ou até “regional demais”. Sobre isso, a cineasta evidencia: “É um preconceito duplo: um que é explícito e outro que é velado. O explícito é aquele comentário de que o cinema paraense é ‘exótico’, ‘folclórico’ ou ‘regional demais’, como se isso fosse um defeito. Como se o universal fosse apenas o que sai do Sudeste. O velado é pior: é a invisibilidade. É o crítico do Sudeste que não dá play no seu filme, é o curador que acha que seu documentário ‘não se encaixa na linha editorial’ porque a linha editorial deles é, na prática, branca e sulista. Cada realizador paraense precisa ter casca grossa. Além de fazer o filme, você precisa fazer o ‘trabalho de provar’ que ele é válido.”
Se para os cineastas já consolidados os obstáculos envolvem o enfrentamento de preconceitos, para os estudantes o desafio começa ainda no processo de formação. Para a estudante de Cinema e Audiovisual da UFPA, Thiffany Martins, a experiência universitária apresenta dificuldades que impactam diretamente a prática cinematográfica. “Eu acho que a principal dificuldade que a gente tem como estudante de cinema no sentido de produzir filmes é tanto durante o curso quanto depois, que é a falta de oportunidade de fazer cinema de fato para fora além da faculdade. O curso de cinema, que já é muito defasado, tem pouco material atualizado, poucos equipamentos e equipamentos quebrados. Tem equipamentos que às vezes param de funcionar do nada e a gente fica dependendo de alugar coisas que são muito caras, principalmente para o Norte e em Belém”, denuncia a graduanda.
De acordo com Damasceno, uma das iniciativas que aponta para a redução das desigualdades é o projeto de regulamentação da Lei Milton Mendonça, que busca assegurar recursos anuais para o audiovisual no estado. Sobre a iniciativa, o professor esclarece: “[...] Essa lei garantiria recursos anuais para esse setor e foi com esse tipo de lei, por exemplo, que o cinema pernambucano conseguiu se desenvolver. [O projeto] possibilita a transformação de uma coisa que era uma política mais de governo em uma política estatal.” Para a nova geração, a permanência na região e a produção a partir do próprio território passam a ser vistas como possibilidade e afirmação regional.
“A gente precisa realmente dar a cara a tapa e mostrar para as pessoas, para o resto do mundo e do Brasil que aqui tem cinema de qualidade, que aqui as pessoas escrevem, filmam, produzem e dirigem. O que precisa melhorar não é a gente, é o resto do Brasil que precisa melhorar essa visão, muitas vezes xenofóbica, de que aqui as pessoas não estão preparadas para grandes produções, sendo que nós estamos sim”, afirma Thiffany.
Assim, o cinema paraense se consolida como um verdadeiro símbolo de resistência. Sejam elas às desigualdades históricas, aos estereótipos que ainda marcam o olhar sobre a Amazônia e, sobretudo, resistência pela permanência de realizadores que insistem em produzir a partir do próprio território. Do eixo ao Norte, o cinema paraense resiste ao mesmo tempo em que se afirma como parte fundamental da diversidade do audiovisual brasileiro.






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