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Dos terreiros à cidade, o coração do pavuleiro tem som de Arraial do Pavulagem

  • Foto do escritor: Revista Cabanos
    Revista Cabanos
  • há 14 horas
  • 4 min de leitura

Por Emily Pinto


Vem chegando o mês de maio e com ele a apreensão de quem sabe que vai reencontrar um grande amor chamado Boi Pavulagem. Entretanto, se engana quem pensa que existe um período determinado para se dedicar ao boi. Como diz a letra da música “O Dito”, da banda Arraial do Pavulagem, deve-se desfazer o dito de que o boi só é bonito em junho, pois, a trajetória de preparação de quem acompanha o cortejo de dentro começa antes mesmo da chegada de maio e o sentimento de celebração e respeito pela cultura dura o ano todo. 


Em 2026 o Arrastão do Pavulagem chega à sua 39ª edição com o tema “Bandeira de Guarnição”, simbolizando a proteção da matéria física e espiritual, além do orgulho das tradições da Amazônia. Esse tema conversa diretamente com a história do Arrastão, que se iniciou em meados de 1987 justamente com o intuito de celebrar a cultura regional. Foram os músicos Júnior Soares, Rui Baldez e Ronaldo Silva que se mobilizaram para dar início aos cortejos, juntamente com outros nomes da cena artística de Belém. A missão foi cumprida.

Foto: Acervo pessoal
Foto: Acervo pessoal

Hoje, a banda Arraial do Pavulagem exerce melhor do que ninguém o papel de preservar e proteger a cultura da Amazônia. Joyce Nunes (23), integrante do grupo de dança do Pavulagem, contou que as integrantes mais antigas recordam de quando o cortejo era composto por uma dúzia de pessoas reunidas na Praça da República e fazem comparação com os dias atuais,  no qual tantas pessoas querem fazer parte do arrastão, cujas inscrições se esgotam quase que instantaneamente. Esse é um demonstrativo do êxito na perpetuação da cultura popular viva.


Joyce começou a acompanhar os arrastões em 2022, quando se mudou para Belém para cursar jornalismo na Universidade Federal do Pará. Natural de Bragança, a comunicadora confessa que se apaixonou assim que conheceu a cultura do Boi Azul. Ela se deu conta de que o movimento é mais do que uma expressão cultural, é algo construído em coletivo, por muitas mãos, no qual as pessoas se tornam família ao longo do processo e que ajuda até mesmo na relação pessoal dos indivíduos com seus próprios corpos. A jornalista descreveu a chegada do mês de junho como uma volta para casa. “As pessoas que sabem que elas tem um espaço e que elas podem sempre retornar e têm um boi, têm uma manifestação, têm o seu chapéu, têm a sua vestimenta que elas sempre podem usar. Tem um momento em que a gente se reúne. Então o mês de maio é como se fosse o nosso início de dezembro, é o início do nosso Natal junino”, destaca.


Foto: @infini_fotografia
Foto: @infini_fotografia

O Arraial do Pavulagem está sempre de braços abertos para receber novos integrantes. Em 2003, criou-se o Instituto Arraial do Pavulagem, instituição sem fins lucrativos com foco em transmitir os saberes e culturas tradicionais, bem como promover ações em prol da educação. Para além dos cortejos de junho, são promovidas ações como oficinas, palestras, projetos de extensão e rodas cantadas.


O instituto é responsável pelas oficinas de iniciação de quem tem interesse em compor o Batalhão da Estrela, grupo artístico que acompanha e celebra o boi durante os arrastões. Danilo Gomes (21), morador de Ananindeua, foi ousado e se inscreveu na oficina de pernaltas, grupo do qual faz parte desde o final da pandemia de Covid-19.  O estudante descreve a mesma sensação de paixão à primeira vista. “Eu falei: ‘Nossa, que incrível o boi lá em cima do teatro bailando’. Eu falei: ‘Meu Deus, eu quero isso, eu quero participar’."


Foto: @mauro_koto
Foto: @mauro_koto

Hoje, a arte tornou-se uma válvula de escape fundamental para o estudante, ajudando-o a lidar com a transição turbulenta para a vida acadêmica. O exercício de aprender algo novo que requer concentração e força fez com que sua mente desacelerasse. Danilo contou que os pernaltas costumam brincar que vivem nas nuvens, uma referência tanto à altura quanto ao foco total necessário para se manterem firmes lá no alto. A sensação de pertencimento também foi descrita pelo jovem, que afirmou: “Fazer parte do Arraial do Pavulagem por dentro é algo de pertencimento, é se pertencer àquilo que a gente movimenta, à movimentação da cultura, da cultura popular nas ruas de Belém.”


Joyce e Danilo são pessoas de localidades, gostos, idades e interesses diferentes que têm em comum o amor pelo Boi Pavulagem, pelo terreiro, pela cultura. Os dois, somados à centenas de pessoas dão forma a uma das maiores manifestações culturais do Pará, o Arraial do Pavulagem, família que os acolheu e que hoje é casa para tantos guardiões da cultura popular local. Seus corpos são ferramentas pulsantes da arte. “A gente é lembrado o tempo todo e de uma forma de muito orgulho mesmo que a gente pertence a algo muito grande que a gente tá fazendo acontecer a cultura popular viva, que cada pessoa que tá ali é a cultura popular viva”, comenta a jovem bragantina. 


Foto: @infini_fotografia
Foto: @infini_fotografia

Um movimento que, no passado, precisava lutar para ter autorização da prefeitura para ser realizado, hoje é Patrimônio Cultural de Belém e do Pará, além de ser reconhecido como Manifestação da Cultura Nacional. Os Arrastões do Pavulagem são manifestações feitas pelo povo e para o povo. Eles representam a cultura pulsante no cotidiano daqueles que, mesmo após uma jornada exaustiva de trabalho, dedicam suas noites aos ensaios no Instituto. Lá, o cansaço dá lugar à construção coletiva de uma calorosa homenagem ao Boi Pavulagem. Essa manifestação é a conversação da cultura do boi-bumbá, dos ritmos da Amazônia e dos elementos religiosos e de encantarias derivados dos interiores da região norte. Os arrastões se iniciam em junho, mas os sons que embalam o cortejo tocam durante o ano todo dentro do coração do pavuleiro.


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