Quando o planejamento urbano escolhe quem sobe e quem afunda
- Revista Cabanos

- há 4 horas
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Por Eva Sarmento e Kauã Ramalho
Quando observamos a periferia de fora, nos deparamos com sistemas que marginalizam esses territórios desde a base, nas casas, nas escolas, nas ruas, etc. E quando se trata de Belém, a capital paraense, essa marginalização é ainda mais complexa. A forma como as comunidades periféricas foram construídas não teve apenas uma base de exclusão ou abandono, essa estrutura foi formada a partir de sistemas arquitetados. Foram reproduzidos – ou melhor, esquecidos – de uma maneira que essa segregação se arrastasse ao longo da história da capital.
Relatórios municipais apresentados ao Conselho Municipal de Belém pelo Intendente Municipal, Senador Antônio José de Lemos, em 1909, trazem dados que marcam a mudança estrutural na cidade de Belém e a concretização dessas políticas. No final do século XIX e início do século XX, o ciclo da borracha levava prosperidade e transformação para a capital paraense. Como grande marca desse ciclo, a cidade passava por mudanças estruturais e arquitetônicas que tinham grandes influências europeias, e mais especificamente, de Paris. Esse período ficou marcado como Belle Époque. Por conta dessa era, a capital também sofreu um crescente fluxo migratório.
Para acompanhar a imagem européia que Belém desejava passar, foi determinada a higienização dos centros. Tudo o que não colaborasse com a imagem de civilização avançada, foi afastado dos centros, inclusive pessoas. As camadas mais pobres da população foram empurradas para as margens, áreas que mais tarde formariam as periferias da capital paraense. A formação dos bairros da Terra Firme e do Guamá teve uma forte influência dessa política segregadora e expôs que o objetivo real da “higienização”, sem dúvidas, era afastar a população indesejada das proximidades da cidade planejada.
Na área onde hoje é o bairro do Guamá, foi construída a Colônia dos Lázaros ou Leprosário do Tucunduba, inaugurado em 1815 e desativado em 1938. A construção do Leprosário tinha o propósito de internar os doentes e portadores de lepra — hoje conhecida como hanseníase. A população composta por leprosos, pessoas que fugiam da casa de tratamento e imigrantes, foi crescendo exponencialmente, influenciando toda a dinâmica ao redor da região, como aconteceu com o bairro da Terra Firme, vizinho do Guamá.
Ao contrário dos centros que vinham recebendo todo o planejamento digno de uma cidade europeia — planejamento que pode ser avistado até os dias de hoje em suas mangueiras e fachadas desenhadas de casarões que se espalharam pelos bairros do centro — para a periferia sobrou desordem, segregação e uma urbanização que foi formada a partir do que estava no alcance daquela população, sem amparo nem planejamento do governo.
Diante dessa dinâmica, as comunidades urbanas foram se expandindo de forma desordenada, transformando-se em alguns dos bairros mais populosos de Belém, em um território marcado pela escassez de recursos e pelo enfrentamento à exclusão social. Com o passar do tempo, as periferias passaram a receber serviços públicos, como escolas, postos de saúde e hospitais, mas a precariedade desses serviços continua evidenciando a segregação que perdura desde a formação do bairro. Conviver com esgoto a céu aberto, enchentes, canais que transbordam e a falta de saneamento básico tornou-se parte da rotina dessas populações.
Dona Leandra Oliveira, que usa a calçada da feira do Guamá há 8 anos para expor as suas peças de brechó, comenta sobre a dificuldade de trabalhar nos períodos chuvosos: "Eu não trabalho, mana. Eu pego as minhas coisas e vou embora pra casa, porque não tem condições de trabalhar, a água invade até aqui, assim. Sempre foi assim. A gente já está pensando que quando chegar o inverno vai ficar complicado pra nós”.

Essa herança de tentar ser uma "Europa na Amazônia" não ficou restrita aos casarões do século passado. Ela apenas mudou de material: saiu o mármore, entrou o concreto armado. Se olharmos para a linha do horizonte de Belém hoje, a divisão social é desenhada no céu. Existe um verdadeiro "paredão" de prédios altos nos bairros nobres, como Umarizal e Nazaré. Esses arranha-céus, fincados nas áreas mais altas e secas, formam uma barreira de vidro que bloqueia o vento. Do outro lado desse muro, olhando para baixo (literalmente), estão o Guamá e a Terra Firme. São áreas de várzea, terrenos baixos onde a gravidade obriga a água a ficar. Não é um defeito da natureza; é a geografia da região. O problema é que é para lá que o esgoto e a chuva escorrem quando batem no asfalto impermeável da parte rica.
O Concreto Contra a Água
A capital da Amazônia, que tem tudo para ser exemplo mundial de arquitetura sustentável, é impedida disso por um planejamento que continua repetindo erros antigos. Mesmo com a COP 30, a lógica das obras seguiu um modelo ultrapassado, herdado da Ditadura Militar: canais retificados, fundos de concreto e margens cimentadas. A ideia ainda é fazer a água correr rápido para longe, uma tática que já se provou falha diante das nossas marés.
A professora Monique Leão afirma: "Já temos tecnologia para trabalhar esses canais de uma maneira que reproduza como os rios funcionam no natural, respeitando esse fluxo de água que sobe e desce, e principalmente pensando na absorção da água, porque muito concreto e asfalto impermeabilizam o solo, e a água não faz mais a permeabilidade."

Ela também menciona soluções de infraestrutura verde, como o gabião (pedras naturais dentro de um aramado usado para conter erosão), e a importância de aumentar a arborização urbana, canteiros e áreas verdes em praças e espaços públicos para aumentar a permeabilidade da água e evitar a sobrecarga no sistema de drenagem. O famoso arquiteto chinês Kongjian Yu chama isso de "Cidades-Esponja", que são cidades projetadas para absorver a enchente, não para brigar com ela. Mas, em vez de absorver, Belém preferiu continuar selando a terra com cimento, ignorando sua própria natureza.
Sombra: Um Privilégio de Classe
Além da água, a desigualdade mora no calor. A verticalização desenfreada dos bairros nobres criou ilhas de calor que sufocam a cidade, mas quem vive nesses bairros ainda conta com refúgios. A Praça Batista Campos é o exemplo perfeito de que o urbanismo em Belém funciona quando respeita a natureza: árvores frondosas, chão que respira, temperatura amena. Mas esse "pulmão" é exclusivo da área nobre.
Quando cruzamos a fronteira para a periferia, a sombra desaparece. Na Terra Firme e no Guamá, a paisagem é dominada por telhas de barro e ruas áridas. Nesse sentido, temos exemplos positivos, claro, como o Mangal das Garças e o Parque do Utinga, que mostram como a cidade poderia ser. Mas hoje eles funcionam como "bolhas", parques cercados desconectados da realidade dura dos bairros vizinhos.
A Conta da Saúde
Historicamente, os bairros do Guamá e Terra Firme sofreram com surtos de Dengue e Leptospirose, consequência direta dos alagamentos e da falta quase total de saneamento. Wellington Alfaia da Graça, morador da Terra Firme desde criança, lembra bem dessa época. "Alagava os quintais e os ratos acabavam adentrando dentro das residências", conta ele. A precariedade era tanta que a rotina acontecia do lado de fora, improvisada. "As casas eram de madeira e na parte de fora tinham os jirais [...] Tinha uma pia e as pessoas preparavam suas comidas ali, às vezes tomavam banho. Então, era muito comum surtos de leptospirose e também houve muito de dengue naquela época", relembra Wellington.
Essa importação forçada de um urbanismo que não cabe na Amazônia cobra um preço alto, e quem paga é a saúde de quem mora na baixada. Sem saneamento básico adequado, bairros inteiros convivem com a água contaminada. Os dados são alarmantes e revelam o tamanho do abandono: segundo o Ranking do Saneamento 2025 (Instituto Trata Brasil), Belém está na 95ª posição entre as 100 maiores cidades do país.
Apenas 19,34% da população tem acesso à coleta de esgoto. Isso significa que, na prática, 8 em cada 10 moradores têm seu direito ao básico negado, convivendo com valas a céu aberto.
Essa escolha política de não investir vira diagnóstico médico. Boletins da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) mostram que os picos de leptospirose coincidem matematicamente com o inverno amazônico. Em 2024, a letalidade da doença foi alarmante. Não é coincidência, nem falta de higiene da população. É o resultado matemático de uma gestão que, segundo o Trata Brasil, desperdiça quase 62% da água tratada antes que ela chegue às torneiras. O mapa da doença é o mesmo mapa da exclusão.
A Periferia que se (re)inventa
Sem o apoio e o planejamento do governo, que historicamente priorizou o centro, a periferia virou exemplo de resistência. As pessoas aterraram seus quintais com as próprias mãos, levantaram o piso das casas para fugir da maré e construíram suas vidas onde o mapa dizia que era impossível morar.

Wellington foi testemunha dessa engenharia popular que preenche o vácuo deixado pelo Estado. Na rua dele, formavam-se buracos e lama e a comunidade tinha que agir por conta própria. "Os próprios moradores jogavam resto de obra ou faziam coleta e compravam carradas de aterro para acabar com os alagamentos na frente das suas residências", relata. É a urbanização feita pela população, financiada pelo bolso de quem tem menos.
A gestão pública continua copiando modelos de fora e ignorando o óbvio: Belém é uma cidade das águas. Enquanto tentarem secar a várzea com cimento em vez de se adaptarem a ela com inteligência e natureza, a conta vai continuar chegando em forma de enchente e doença na porta dos mesmos moradores.



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