Quando o ódio viraliza: como a misoginia online está adoecendo emocionalmente mulheres
- Revista Cabanos

- há 1 dia
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Por Eva Sarmento
Da “novelinha de frutas” aos conteúdos red pill, a internet vem refletindo uma realidade cada vez mais inóspita para as mulheres, desde o acesso às ruas até o acesso à internet. Em uma sociedade onde o perigo atravessa tanto as ruas quanto o ambiente virtual, viver em alerta deixou de ser exceção e passou a fazer parte do dia a dia.
Com o crescimento contínuo de conteúdos misóginos virais nas redes sociais, a sensação de insegurança que os discursos de ódio contra mulheres causam, excede a tela. A frequente exposição a esses conteúdos, afetam o seu emocional e físico de forma generalizada, gerando impacto significativo em todos os seus círculos sociais.
A psicóloga Rhadana Fernandes comentou sobre o impacto desse discurso: “A misoginia está profundamente ligada ao controle do corpo feminino. É um comportamento histórico que se aprimora ao longo do tempo. Agora com a esfera digital e a disseminação rápida da Internet, ele se aprimora e atinge outros patamares. Então independente de onde elas estejam, elas vão ser atingidas por essa violência, e como consequência, podemos ver o crescimento dos casos de ansiedade, isolamento e sentimentos de inadequação dessas mulheres.”

O cérebro é moldado por experiências socioambientais adversas e por fatores ambientais. Dessa forma, quando exposto a padrões de violência, discriminação e assédio, o seu desenvolvimento é afetado pelo estado de alerta, medo e insegurança.
Um estudo publicado pela Washington University em 2023, intitulado “Country-level gender inequality is associated with structural differences in the brains of women and men”, analisou mais de 7,8 mil imagens cerebrais de pessoas de 29 países e identificou que mulheres que residem em países com maior desigualdade de gênero possuem maior tendência ligada à piora da saúde mental, principalmente a estresse, depressão e estresse pós-traumático, em comparação com mulheres de nações com menores índices de desigualdade de gênero.
O número de denúncias ligadas à crimes de ódio contra mulheres no ambiente online é crescente. Segundo dados da SaferNet, em 2025, 8.728 mulheres denunciaram a violência de gênero no meio digital, um aumento de 224,9% de denúncias em comparação com 2024, que registrou 2.686.
Em paralelo a essa discussão, redes sociais com maior número de usuários, como o Instagram e o TikTok, acumulam milhares de views em contas que engajam conteúdos na qual a narrativa gira em torno de discursos misóginos. Não são raros os coaches que monetizam, bombardeando vídeos nos quais ensinam homens a desprezar mulheres e a obter vantagens em relação a elas. A chamada “novela de frutas” que ganhou destaque nas redes, constrói enredos que incitam a violência contra figuras femininas em cenários fantasiosos. A reprodução desses discursos ultrapassam o virtual, se instalam nos ambientes físicos e perseguem as mulheres ao redor.

Segundo uma pesquisa realizada em 2025 pelo DataSenado e pela Nexus, em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência do Senado Federal, 8,8 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência digital nos últimos 12 meses. Em média, 10% da população feminina brasileira relatou ter sofrido violência no meio digital. Entre as maiores violências, mensagens ofensivas, invasão de contas e mentiras em redes sociais foram as mais frequentes.
O crescimento desses números acende um alerta em respeito à saúde mental das mulheres e mostra que a internet é uma terra onde elas não são bem-vindas. Um ambiente que deveria servir como entretenimento, vira zona de tensão. Se antes o medo era sair de casa, agora basta passar algum tempo na internet para se deparar com a violência.
A monetização em cima desses conteúdos é uma das principais ferramentas que promovem o aumento desses acessos e fomentam a normalização de narrativas relacionadas à prática de violência de gênero na Internet. O controle de conteúdos que incitam a misoginia é essencial para a diminuição do alcance dessas postagens misóginas.
Diante dos impactos da violência digital na saúde mental feminina, a psicóloga Rhadana Fernandes alerta sobre a necessidade de acolhimento e conscientização das mulheres expostas a esse ambiente hostil. Para a psicóloga, além de reconhecer os efeitos emocionais provocados por esses ataques, também é fundamental construir estratégias de resistência e ampliar o debate sobre a dimensão estrutural dessa violência.
“É importante trabalhar com essas mulheres que essa insegurança não é uma fraqueza, esse é realmente um ambiente muito violento, mas que a partir daí, devemos construir formas de resistência. Ainda sim, é essencial desenvolver um senso crítico sobre esses conteúdos. Vamos falar, postar e reconhecer que o problema não é individual, que o problema não está nas mulheres. A gente tem que considerar que isso que elas estão trazendo são questões sociais e estruturais.” complementou.




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