Da saúde aos problemas sociais: O que atravessa a inclusão dos idosos no meio digital?
- Revista Cabanos

- 2 de jul.
- 6 min de leitura
Por Álvaro Amaral,Breno Reis e Matheus Rodrigues
Uma senhora de cabelos brancos e vestido florido se senta em uma poltrona ao lado de uma mesinha decorada, na sala, um rack cheio de porta-retratos que registram anos de recordações, histórias, vivências e muitas memórias e, em um gesto comum de todos os dias, liga um pequeno rádio para passar o tempo. Em questão de segundos, um instrumental harmonioso inicia, quebrando os pensamentos silenciosos de Eliza Simão Batista, moradora do bairro do Marco, na capital paraense, analfabeta e uma idosa de 94 anos bem vividos.
Para várias pessoas, esse é um comportamento já ultrapassado na atualidade e esquecido pelas gerações atuais. Apesar de parecer uma simples e pequena ação do cotidiano, o dia a dia de Eliza traduz a realidade de milhares de pessoas idosas espalhadas pelo Brasil, levantando diversas questões sobre como anda o cenário da Educação Digital para os idosos nos últimos tempos, já que muitas vezes, seja por amor ou por falta de opção, essa parte da população passou a utilizar o rádio como uma alternativa ao uso de dispositivos mais modernos.
Além de seu aparelho radiofônico, dona Eliza conta que possui acesso apenas a uma televisão, que ela quase não liga, e a um celular, que serve apenas para ligar e receber chamadas, já que seus conhecimentos relacionados ao manuseio do meio virtual são muito limitados.

“Esse negócio de internet, até as crianças estão sabendo. Mas, eu mesma nunca me dediquei com isso. Isso é para o pessoal novo que está estudando. A única coisa que eu tenho aqui é a televisão e o celular. Eu nunca tive tempo pra essas coisas e, agora, a minha cabeça já não dá mais pra eu ficar me envolvendo. Eu gostei sempre de levar os meus filhos pro colégio, pra aprender, pra assistir as palestras. Mas, eu mesma não. O tempo de aprender muita coisa já passou”, afirma.
As reflexões de Eliza descrevem um cenário comum para a maioria dos idosos diante do mundo online e digital. Ela acredita que, por conta de sua idade, não é mais capaz de manter uma relação eficiente com os meios virtuais e nem aprender a usar aparelhos tecnológicos, demonstrando uma visão que, infelizmente, muitas pessoas idosas têm nos dias de hoje. Afinal, o que realmente atravessa a relação entre as pessoas idosas e as tecnologias?
De acordo com o último censo demográfico, realizado em 2022, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de pessoas idosas com 60 anos ou mais no país chegou a um total de 15,6% de toda a população brasileira, registrando um aumento de 56% quando comparado a 2010.

Mesmo com esse aumento cada ano maior de idosos no Brasil, eles fazem parte de um grupo menos favorecido quanto ao acesso às novas tecnologias. Ainda segundo relatórios do IBGE, no ano seguinte, em 2023, entre 186,9 milhões de pessoas com mais de 10 anos de idade, 12,0% não utilizaram a Internet nos três meses anteriores à pesquisa. Desse total, 51,6% eram idosos, o equivalente a 22,4 milhões de pessoas.
Em razão desses valores, o Instituto decidiu investigar quais motivos teriam levado essa parte da população ao não uso do sistema nesse período. Como resposta, o que mais foi apontado por essas pessoas foi o fato de elas não saberem utilizar a Internet, registrado por 46,3% das respostas.
Esse valor mostra que o principal fator para a não inclusão digital desse grupo na sociedade moderna atual é a falta de incentivo de um letramento especializado ao ensino de como usar os dispositivos e ferramentas tecnológicas, tendo em vista que grande parte dos idosos tem dificuldades em acessar a internet. Com a escassez desses incentivos, os idosos envelhecem sem os conhecimentos necessários para manusear de maneira devida os recursos tecnológicos, causando um atraso social na vida dessas pessoas.
Além disso, outro problema surge: a vulnerabilidade. Apesar de a digitalização ter facilitado a vida de muitos indivíduos, a exemplo da agilidade na troca de serviços bancários e em outros atendimentos, em contrapartida ela também expôs as pessoas idosas ao perigo crescente de golpes virtuais, o acontece justamente pela falta de conhecimentos básicos.

Os idosos são as principais vítimas de enganações, fraudes, roubos de senha, ligações falsas, notícias falsas e ataques cibernéticos, que afetam não somente o patrimônio financeiro dessas vítimas, mas também a saúde mental, ocasionando uma dupla ameaça. Só entre janeiro e setembro do ano passado, o Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania registrou 72,4 mil casos de violação patrimonial denunciadas no Disque 100, e quase metade deles foram de pessoas com mais de 60 anos.
A Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH) também recebeu mais de 300 denúncias de pessoas idosas que sofreram com golpes pela internet. Isso acontece porque aqueles que desconhecem a importância da segurança digital e como se proteger se tornam mais vulneráveis. Esse cenário acaba provocando um sentimento de medo e insegurança por parte dos idosos, gerando marcas que permanecerão com eles até o fim de suas vidas e prejudicando a continuidade de seus aprendizados.
Outra condição que afeta a aprendizagem e a inserção das pessoas idosas ao mundo digital é o surgimento de doenças neurodegenerativas com a chegada da velhice, como a doença de Alzheimer, um transtorno fatal e progressivo responsável pela deterioração gradativa da memória e, em casos mais graves, pelo comprometimento de tarefas cotidianas, como a leitura.
O Alzheimer é causado pela morte de um conjunto de neurônios, responsáveis por diversas funções neurológicas, mentais e cognitivas do cérebro, causando prejuízos na comunicação, na tomada de decisão, na atenção, na compreensão, e até mesmo na gestão das emoções, o que impacta significativamente o aprendizado das pessoas idosas.
Toda essa repercussão foi grande o suficiente para que a Organização Mundial da Saúde (OMS) o considerasse como a forma mais comum de demência, sendo a causa de 70% a 80% dos casos registrados, afetando milhões de pessoas espalhadas pelo globo.

No entanto, um dos grandes problemas acontecem quando os sintomas do Alzheimer surgem para antecipar essas condições cognitivas naturais, dificultando a maneira como as pessoas interagem com sua própria realidade e com as tecnologias ao seu redor, modificando o modo como eles mexem em aparelhos móveis, como conversam na internet e, principalmente, como são vistos pelos outros.
Pelo fato de o Alzheimer e outras demências serem considerados deficiências intelectuais e psicossociais, ou seja que prejudicam o bom desenvolvimento do intelecto das pessoas idosas, muitas delas, além de terem que encarar a vida difícil do auto tratamento dessas doenças, precisam lidar com o peso das visões pejorativas da sociedade em que vivemos.
A psicóloga e professora do Centro Universitário Metropolitano da Amazônia (UNIFAMAZ) Bianca Fonseca é especialista no cuidado e no atendimento de idosos. A profissional explica que, mesmo com o envelhecimento cerebral e o declínio de algumas capacidades cognitivas naturais do ser humano, as pessoas idosas não estão à mercê da incapacidade de aprender.
“Com o envelhecimento, o cérebro vai passar por mudanças naturais, como a redução da velocidade do processamento de informações e a diminuição da plasticidade neural, que é a capacidade de formar novas conexões. No entanto, os idosos têm a vantagem de contar com um vasto repertório de experiências e conhecimentos que são acumulados ao longo da vida, o que facilita a associação de novas informações com memórias já consolidadas. Além disso, o aprendizado na velhice tende a ser mais focado e motivado, o que pode compensar a lentidão no processamento”, destaca a professora.
A psicologia, assim como outras ciências, desenvolve uma função importante no cuidado, no suporte e no acompanhamento das pessoas com Alzheimer, atuando, por exemplo, no diagnóstico precoce da doença, feito por avaliações neuropsicológicas que identificam alterações comportamentais e cognitivas no paciente, para evitar maiores complicações e futuros danos.
“As pessoas idosas com Alzheimer devem ser tratadas com respeito, com paciência, com empatia, com amor. Porque se a família ou o cuidador agir de forma agressiva, o paciente pode ficar ainda mais agitado. A agitação libera adrenalina, libera nervosismo e libera estresse e isso acaba piorando o quadro do mesmo. Então, é essencial criar um ambiente seguro e acolhedor, adaptado às necessidades, e manter uma rotina estruturada para reduzir a ansiedade e a confusão mental. Isso não é fácil por parte dos familiares e do paciente. Eu quero ressaltar sempre a importância de uma equipe multiprofissional”, continua.
A inclusão das pessoas idosas no mundo digital não é um processo fácil e, muito menos rápido. Ele demanda tempo, paciência, persistência e coragem. Mas, além disso, acima de tudo, ele requer esperança para enfrentar muitos desafios e obstáculos que existem por um longo caminho. Garantir essa inclusão é um dos primeiros passos para transformar a sociedade. E entender que os idosos também fazem parte desse processo, seja pela conscientização ou por meio de práticas que ajudam essas pessoas, nos mostra que elas têm os mesmos direitos e precisam ter as mesmas oportunidades de aprender.






Comentários